O Ostracismo por Cancelamento e o tribunal popular da internet.

Havia pouco de normal naquela manhã. O ano era 2020 e vivíamos uma Pandemia agravada por um governo desequilibrado.

O projeto genocida brasileiro seguia de vento em polpa e os pobres, negros, indígenas e mulheres que não somavam os 17 mil mortos nós noticiários, entravam para estatisticas muito mais antigas. João Pedro era o nome que pairava pelo ar mórbido que marcava o dia 19 de maio. Jovem negro e favelado, assassinado por policiais dentro de sua casa e sequestrado após o ferimento para ser abandonado há 40 km de sua família e morrer… sozinho. A história do jovem era a mais nova cara do desespero brasileiro, o mais novo rosto do absurdo número de corpos jovens e racializados que compõe a necropolítica já normalizada.

O Presidente brasileiro, um genocida sagaz e competente demais em parecer incompetente fazia piada comparando um remédio que pregava ser o elixir salvador do mundo a um tradicional refrigerante enraizado na memória gustativa da população brasileira.

O absurdo era tamanho que nenhum de nós era capaz de descrevê-lo e um mal sem descrição é um mal quase impossível de ser derrotado.

Há meses os jornais e suas equipes se reviravam para cobrir as consequências da Pandemia, a crise econômica adjacente e as loucuras mídiacas do lunático calculista que havia sequestrado o governo federal brasileiro. Naquela noite, depois de cobrirem a chacina policial que se reiterava nas comunidades pobres de todo o país, depois de contar a tristeza do caso de João Pedro, depois da piada do presidente no dia em que o país passava dos 17 mil mortos, depois de perceber que noticiar não tinha mais efeito… depois de muito tempo aconteceu uma coisa tão inédita, tão absurda, tão imprevisível que se tornou a notícia do mundo.

Quando amanhecemos no dia 20 de maio, que na verdade era um adiantamento de algun feriado do mês 11 ou 12 ou sei lá o que… o sol que iluminou as ruas e as casas, também iluminou uma incrível ausência. As redes sociais, os jornais e as televisões haviam banido o presidente. Sei nome estava proibido e aí ser escrito era automaticamente apagado pelos computadores. Sua fotografias haviam sido apagadas por reconhecimento fácil de todos aplicativos. O impossível aconteceu e a máquina da eterna memória que era a internet expurgou o líder de uma das maiores economias do mundo.

Pela manhã houve apreensão, todos notaram a ausência quase que imediatamente. Recuperamos o termo “aquele que não pode ser nominado” do livro adolescente como hastag. Os jornais do mundo preocupavam-se em analisar os riscos de ignorar tão veemente um presidente ainda em exercício. Mas o ostracismo pós-moderno logo se revelou uma benção aos cidadãos. Como seu nome proibido a máquina de fakenews enfraqueceu, o despudor dos seguidores doentes do líder genocida se tornou claramente o que sempre foi: um delírio de culto ao que nunca deveria ter escrito. A cultura agressiva e violenta do “cancelamento” ganhava ares de resistência política. Outros países se preparavam para adotar o protocolo de apagamento de seus líderes inúteis.

Com uma semana sem a maldição do presidente estampada em nossas telas o o impeachment foi planejado, em 15 dias implementado, com a imagem enfraquecida o general herdeiro do cargo temia por sofrer o mesmo destino do ex-presidente e sabia que para escapar da condenação do “cancelamento” só poderia preparar eleições diretas o mais rápido possível. A internet havia criado um tribunal ainda mais soberano que famoso Tribunal de Haia, o tribunal do silêncio.

Yuval Harari preparava sua nova obra para falar do homo-abstratus, uma espécie bi-existencial de humano que fazia seus julgamentos sociais através das máquinas de expansão psico-cofnitivas em ambientes não físicos regulamentados por HTTPS e outras linguagens não significativas ou significantes.

Era um quase-salto ontológico. Uma verdadeira revolução. Desde então tipificou-se nos tribunais internacionais o “Ostracismo por Cancelamento” como a força dos tempos modernos. Como já apontava Harari em sua profética fala no World Economic Forum do mesmo ano: “ser irrelevante é pior do que ser explorado”.

pensando o mundo em textos de metrô, mesa de bar e cama vazia, sem revisão alguma...

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